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Mais de mil bois cruzam MS e chegam a Camapuã após 65 dias no estradão

on qui, 19/02/2026 - 13:40
quinta-feira, 19 Fevereiro, 2026 - 12:30

Uma cena que já foi comum no interior do Brasil, mas que hoje se tornou rara, voltou a chamar atenção esta semana em Camapuã. Uma comitiva com 1.110 reses está em reta final de viagem após 65 dias de estrada, resgatando uma tradição centenária da lida pantaneira. 

Enquanto muitos aproveitavam o Carnaval, homens seguiam no estradão, sob sol, poeira e serração, tocando boiada como se fazia antigamente. 

 

De Corumbá até Camapuã: 65 dias no lombo do cavalo 

A viagem começou em Corumbá, no coração do Pantanal sul-mato-grossense. O destino agora está próximo: uma propriedade rural nas imediações de Camapuã. 

À frente da tropa está o condutor Seu César Couto, homem de poucas palavras e muita estrada no currículo. 

“Ela saiu de Corumbá. Hoje nós  com 65 dias. Daqui uns cinco dias eu entrego ela, se Deus quiser.” 

A fala simples carrega o peso de quem conhece cada palmo de chão batido e cada mudança de tempo no horizonte. 

 

A travessia da Serra e a histórica Rota das Monções 

Um dos trechos mais difíceis nessa reta final foi a transposição da serra na tradicional Rota das Monções, antiga estrada boiadeira com mais de 300 anos de história. 

Esse caminho foi utilizado pelos bandeirantes no período colonial, servindo como rota estratégica de ligação entre o interior e outras regiões do país. Hoje, ainda guarda o traçado rústico, curvas fechadas e subidas exigentes — cenário que mistura história, resistência e tradição. 

É justamente nesse trecho que a comitiva revive o passado, transformando a paisagem em um verdadeiro retrato da história viva do Brasil rural. (Na matéria completa, fotos e vídeos mostram a dificuldade da subida e a imponência da boiada serpenteando pela serra.)

 

 Sete homens e uma missão 

A comitiva é formada por sete integrantes: seis peões na boiada e um cozinheiro. 

Mais do que função, o que move o grupo é responsabilidade e companheirismo. 

“A responsabilidade aqui é de sete companheiros, amizade e companheirismo pra poder chegar até no final. Não ter confusão, tratando o boi do homem…” 

Cada peão cumpre seu papel na manga, na culatra, na frente, cuidando para que nenhuma rês se perca, que o ritmo seja mantido e que a tropa siga firme até o destino.

 

Natal, Ano Novo… tudo na estrada 

A vida de quem toca boiada não escolhe calendário. 

Natal, Ano Novo, aniversário de esposa, aniversário de filho — muitas vezes passam longe de casa. 

“Tudo longe, tudo na estrada.” 

Enquanto o país celebra festas e feriados, esses homens seguem na lida. Dormem sob o céu aberto, acordam antes do sol e enfrentam chuva, poeira e cansaço. É o agronegócio que não para. É a engrenagem humana que mantém a tradição viva. 

Uma tradição que resiste, mas diminui 

Segundo Seu César, as comitivas vêm diminuindo principalmente na região de serra. 

“Já está acabando os mangueiros, muito asfalto. Aqui pra cima virou lavoura.” 

A expansão da agricultura e o avanço das rodovias asfaltadas mudaram o cenário. Onde antes havia mangueiros e corredores de passagem, hoje predominam plantações. 

No Pantanal, porém, o serviço ainda é forte — especialmente nas regiões de Rio Verde, Coxim e Corumbá — onde o transporte a cavalo ainda encontra espaço e necessidade. 

 

Mais que transporte, é cultura viva 

Levar 1.110 bois por mais de dois meses, atravessando estradas de chão, serras históricas e regiões que já foram rota de bandeirantes, é mais que trabalho — é resistência cultural. 

É o som do berrante ecoando na serra. 
É o cheiro do café no fogo de chão. 
É a amizade forjada na poeira. 

Num tempo em que quase tudo virou pressa e tecnologia, a comitiva que passa por Camapuã mostra que ainda há espaço para o compasso antigo do Brasil rural. E enquanto muitos estão na folia, há quem esteja no estradão — mantendo viva uma tradição que ajudou a construir a história do país.